Antes de Carolina, tem Ruth, Auta e Maria!

Texto de Joaquim Maria Botelho

A série “Segunda chamada” transmitida pela TV globo errou ao  afirmar que Carolina foi a primeira escritora negra a publicar um livro no Brasil. Antes da brava Carolina, tem Ruth Guimarães,  Auta de Souza e Maria Firmina dos Reis.

A série “Segunda chamada”, dirigida por Carla Faour e transmitida pela TV Globo, até que parece ter boa intenção. Retrata o dia a dia cruel de uma escola incrustada numa comunidade do Rio de Janeiro, exibindo a vida desgraçada dos professores e dos alunos de uma unidade de EJA – Escola de Jovens e Adultos. Porém, a boa intenção esbarra em pesquisa ruim e presunçosa da diretora e da equipe de produção. No primeiro capítulo, a professora de Língua Portuguesa, personagem de Débora Bloch, afirma com todas as letras que Carolina Maria de Jesus, a brava autora de “Quarto de Despejo”, foi a primeira escritora negra a publicar um livro no Brasil. Imperdoável, em se tratando de uma série que trata de educação – mas deseduca, por ignorância dos autores. Carolina Maria de Jesus publicou o seu livro, por interferência direta e apoio do meu amigo, jornalista Audálio Dantas, em 1960. Esqueceu-se a produção de pesquisar. Antes, precisamente 14 anos antes, Ruth Guimarães publicava “Água Funda”, romance recentemente reeditado pela Editora 34.

Água funda – Edição da Livraria do Globo. 1946.

Menos ainda fizeram a produção e a roteirista da série, ficando na informação fácil que não privilegiou a verdade: bastava conhecer um pouco mais de literatura, ou perguntar para quem conhece, para falar da poeta potiguar Auta de Souza, no final do século XIX,  E, antes ainda, da maranhense Maria Firmina dos Reis, que publicou, em 1859, o romance “Úrsula”. Neste texto, chamamos a atenção para que não se desprezem autoras que, pela preguiça e desconhecimento de quem devia incentivar a divulgação da nossa literatura, ficam ao largo da história.

 

Festejemos a valeparaibana Ruth Guimarães, cujo centenário de nascimento será celebrado em 2020, e que foi a primeira escritora negra a integrar a Academia Paulista de Letras, de 2008 até sua morte, em 2014.

Texto de Joaquim Maria Guimarães Botelho - jornalista, ensaísta e escritor brasileiro. Filho da escritora Ruth Guimarães Botelho

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