Monteiro Lobato e reflexões sobre o futuro do Vale do Paraíba

No texto, o historiador Diego Amaro de Almeida apresenta como Lobato não conseguia enxergar muito além do desastre econômico que ocorreu no Vale do Paraíba e colocou o caipira na condição de espera de um futuro que talvez não existisse mais.

O material faz parte da primeira coletânea do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV), lançada em julho deste ano.

Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito.(Monteiro Lobato, 1919)

Sábia observação de Monteiro Lobato ao escrever a crônica “Cidades Mortas”. Claro que essa constatação se refere a um Vale que se aquietava após o “longo” período de fausto, promovido pela áurea produção do café.

Muitos enriqueceram com essa produção, e durante o século XIX formaram-se grandes fortunas. Nasceu uma aristocracia rural na região, famílias lutavam por títulos de nobreza a fim de serem reconhecidas como parte da elite brasileira. Os senhores de terras logo se tornaram importantes para o Império brasileiro e financiaram, entre outras coisas, a própria independência do Brasil. Porém, quando buscamos um legado, nos deparamos com terras empobrecidas e hábitos culturais que venceram o tempo, como a preocupação de ser reconhecido como parte de uma elite. Existe até um ditado que diz: Avô rico, filho nobre e neto pobre. Essa frase resume bem o fim das grandes fortunas feitas pelo café.

A riqueza dessa produção durou pouco mais de um século, já que o plantio exagerado e despreparado e a falta de técnicas para uma produção eficaz que não deixasse o solo perder sua qualidade foram responsáveis pelo fim do período. Alguns até acreditavam que a derrocada do café se deu na ditadura de Getúlio Vargas, em 1930, após a queda da bolsa de valores em 1929. A queda da bolsa só fez com que o café não tivesse mais proteção em nosso mercado, porém, o Vale do Paraíba presenciou esse fim quase que ao mesmo tempo em que presenciou a abolição da escravatura.

Plantaram o café em linhas retas. A cada chuva a água escorria pelos campos e levava as propriedades do solo, empobrecendo-o e tornando-o infértil para a rubiácea. Com o solo enfraquecido, a colheita e a qualidade da produção diminuíam.

Uma saída interessante seria diversificar negócios, porém, o Brasil nunca se mostrou muito preocupado com isso. Todas as vezes em que um produto se destacava ou se destaca, todos passam a investir na mesma coisa, o que se torna um perigo, pois, ao soar de qualquer crise, todos caem juntos, desamparados pela economia.

Os senhores aplicavam no café. Outro tipo de aplicação era o comércio ilegal de escravos, afinal, o tráfico já havia sido proibido em 1831. Faltava a diversificação dos negócios. Alguns fazendeiros até conseguiram, como foi o caso de Maria Joaquina de Almeida, de Bananal-SP, que investiu em ações e títulos, porém, eram casos raros e isolados. Neste sentido, qualquer problema que ocorresse levaria a região e seus produtores à falência. E foi o que aconteceu: o café começou a declinar, e em seguida veio a abolição. A falência começou a dominar a região, logo, muitas fazendas foram abandonadas, e tantas outras acabaram sendo vendidas. Onde antes tudo era café, agora há pasto e gado, o que também não é bom para o solo e vai provocar um desgaste ainda maior. Segundo o próprio autor de “Cidades Mortas”, isso se dava pelo “progresso de cigano, que vive acampando. Emigra, deixando para trás de si um rastilho de taperas”.

Monteiro Lobato chega ao município de Areias para ocupar o cargo de promotor público. Exatamente nesse período de decadência assume a promotoria, em abril de 1907. Um tempo de tristeza e mesmices na visão de Lobato. Ele, que naquele momento era um jovem, acabara de se formar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, mas trazia na alma o amor pela arte e pelas letras. Claro que também aparentava estar mais preparado para, quem sabe, assumir o cargo em São Paulo ou no Rio de Janeiro, considerados lugares mais vivos e cheios de novidades. No entanto, ao chegar à pacata Areias, ele fica encantado.

Segundo Prof. Guido Gilberto Nascimento (2004, p. 88):

Em 1907, Monteiro Lobato tem de contentar-se com a nomeação para Areias, cidadezinha (como Taubaté) também no Vale do Paraíba, onde escorre uma vida morna de cidadezinha qualquer. O jovem promotor transfere-se para Areias, onde fica na expectativa de uma remoção que jamais chega. Areias transforma-se em modelo de Oblívion, de Itaoca e de todas as CIDADES MORTAS cuja imagem percorre a obra do escritor, dando inclusive nome para o livro que publica em 1919.

Mesmo Monteiro Lobato não apresentando o verdadeiro município que inspira sua obra, fica evidente em cada linha do seu texto que ele se refere a Areias. É certo que no começo de sua obra é possível perceber um escritor que faz uma crítica um pouco dura às mesmices das cidades mortas e do caipira que ali vive.

Prof. Guido ainda nos apresenta algumas informações do cotidiano do escritor Monteiro Lobato no município de Areias:

O promotor recém-casado retoma suas atividades, residindo agora num casarão enorme, de dez janelas. […] No ramerrão cotidiano, a promotoria dá muitas folgas a Monteiro Lobato, nas quais ele pinta aquarelas, diverte-se com a marcenaria, devora livros comprados nas frequentes viagens a São Paulo. […] Com esse ritmo de vida, Monteiro Lobato encontra tempo de sobra para prosseguir sua colaboração na imprensa, enviando de Areias matérias e charges diferentes de jornais e revistas.

Tais observações nos permitem perceber que o fato de Areias ser pacata e apresentar poucos problemas que exigissem mais do promotor deu também a ele mais tempo para produzir muito da sua obra, preparando o autor para um futuro que ele talvez não conhecesse, mas que seria grande e faria dele um dos maiores autores do País, reconhecido tanto por sua obra adulta quanto pela infantil. Uma figura que mudaria a forma de produzir e consumir livros no País, já que foi também o trabalho de Monteiro Lobato que, em 1918, deu base à indústria editorial no Brasil, ao revolucionar a distribuição de livros pelo País e gerar um novo cenário para seu comércio.

Já há algum tempo afirmo uma situação, baseado em um pensamento do filósofo alemão Karl Marx: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade […]” e, por não fazerem de acordo com sua própria vontade, também têm dificuldade em perceber o que estão fazendo e produzindo pela história, afinal, dificilmente serão eles que irão contar sua própria história.

Neste sentido, volto a dizer: Lobato, quando afirmou “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”, não conseguia enxergar muito além do desastre econômico que ocorreu no Vale do Paraíba e colocou o caipira na condição de espera de um futuro que talvez não existisse mais, como se, em um passe de mágica, um novo produto, assim como o café, fosse dar vida e significado para a região outra vez e tirá-la da mesmice de todos os dias.

O escritor de “Os Sertões”, Euclides da Cunha, em carta a um outro imortal brasileiro, Coelho Neto, afirmou o seguinte: “O vento que toca as roseiras de Campinas não são os ventos que tocam as palmeiras imperiais da minha melancólica Lorena”. Euclides queria dizer que o município de Lorena, que antes também fora uma potência, agora não demostrava sinais de progresso, já que não se tinham dimensões de como os municípios da região do Vale do Paraíba poderiam voltar a produzir. Ainda poderíamos citar Maria Benedita Rezende Graciotti, mais conhecida como Eugênia Sereno, escritora do romance “O Pássaro da Escuridão”, que, ao referir-se a Mororó-Mirim (lugarejo fictício que também podemos entender como o município vale-paraibano de São Bento do Sapucaí, um lugar tão pacato em que até as esperanças envelhecem), escreve:

Mororó-Mirim, o burgo aqui retratado, onde a noite começa bem cedo e a vida aquebrantada expira em vagares, parece modelar-se à imagem das impassíveis montanhas que o circundam, na permanência e na imutabilidade que a Natureza lhes impõe. A vida vegetante e dócil espia e passa, bocejando na quietude quase palpável da cidade lanceada pelo sino, na letargia que a embala, sob a voz de um vento ingente. O mundo por aí não estremunha. Por isso, Mororó-Mirim é a estagnação de um burgo frustro, de um confim desamparado, que prescindiu do progresso, com suas três lojinhas de ruidoso turco biscateiro, contando tostão, mercanciando chitas e imagens, mel, carretéis, requeijão, broas e botinas, pássaros de plumagem arco-irisada.

Assim, a maioria dos nossos escritores retratou os diferentes recantos do nosso Vale do Paraíba, porém, uma coisa passava despercebida pelos olhos deles, talvez até mesmo pela imaginação, que impede o autor de perceber a magnitude de sua obra e a riqueza do seu legado intelectual.

Eles não percebiam que agora o Vale contribuía de uma nova forma e ganhava uma nova dinâmica. Nascia uma região de qualidade intelectual que seria berço de grandes nomes das artes, da cultura, da ciência, da literatura… Como um dia afirmou Prof. José Luiz Pasin, importante historiador dessa região, o Vale era Atenas. E ele estava certo. Com isso, podemos perceber que o grande tesouro dessa região passou a ser o conhecimento, ainda pouco valorizado.

 

Monteiro Lobato em seu escritório – Fonte: www.ebiografia.com

Mas se quisermos falar de economia, de uma indústria financeira, precisamos começar a preparar um Vale do Paraíba que reconhece a importância do turismo como fonte de renda, pois, se começarmos a perceber todo o potencial que temos para roteiros turísticos, poderemos elevar muitas coisas na região. Pensar o turismo é melhorar nossas cidades para receber o visitante, é fazer estudos para que possamos extrair o máximo de nossas potencialidades, é reconhecer a nossa identidade para criar “produtos” que mostrem a nossa história, que não é só regional, mas também nacional. Precisamos valorizar, para que os outros consigam fazer o mesmo. Quantos vêm ano após ano a esta região e se encantam com as maravilhas que possuímos, com a nossa riqueza histórica? Precisamos arregaçar as mangas e começar um trabalho pelo qual passemos a perceber nossa relevância, e então, sim, sairemos do ostracismo do passado, mas sem apagar ou destruir nossa memória.

O convite para fazer esta reflexão sobre os 100 anos da obra “Cidades Mortas” só me fez acreditar ainda mais no potencial que temos. Porém, fica uma ponta de preocupação, pois precisamos entender que dá para ser grande mantendo-se no Vale do Paraíba. Aqueles que fazem a diferença na nossa região precisam permanecer nela, para que tenhamos um futuro com novas marcas de um Vale que ainda pode nascer das cidades mortas.

Referências

LOBATO, Monteiro, 1882–1948. Cidades Mortas. São Paulo: Globo, 2007, p. 10.

NASCIMENTO, Guido Gilberto do. Areias: berço do café no Vale do Paraíba – Achegas a sua formação histórica. Lorena: 2004, p. 89.

SERENO, Eugênia. O Pássaro da Escuridão. 1. ed. São Paulo: Livraria José Olympio, 1965.

A primeira coletânea, lançada em julho de 2019 pela Casalua, reúne textos dos pesquisadores do Instituto de Estudos Valeparaibanos.

 

Diego Amaro de Almeida

Presidente do IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos). Professor. Mestre em História Social. Coordenador do Curso de História do UNISAL – Unidade Lorena. Pesquisador do CESAPER – Centro Salesiano de Pesquisas Regionais (Prof.José Luiz Pasin). Especialista em Tecnologias Educacionais e  metodologias ativas. Autor de Maria Joaquina de Almeida – A Senhora do Café. 

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