Doutor Euclydes da Cunha com Y

Texto de Ana Cristina Bastos 

A Casalua trabalha com a assessoria do autor e na divulgação da obra. A edição de “Doutor Euclydes” é do @institutouka, do editor-amigo @danielmunduruku.   

 

 

“Nem outra coisa quero. Serei um vingador e terei desempenhado um grande papel na vida o de advogado dos pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha, covarde e sanguinária… Além disto, terei o aplauso de uns vinte ou trinta amigos, em cuja primeira linha estás. E isto me basta…”

(Carta de Euclydes da Cunha a Francisco Escobar, datada de 21 de abril de 1902, em Lorena)

 

Nada parece mais atual, mas antes profético, do que este trecho de uma carta de Euclydes da Cunha a Francisco Escobar em 1902.

O que nos leva a outro Francisco, professor e historiador incansável no registro e reconhecimento da história e de personalidades que povoaram e povoam o Vale do Paraíba, especialmente o Paulista, pedaço onde vive e revive, por meio de aulas, artigos, entrevistas e livros, o “caminhar” desse canto do Brasil cheio de encantos.

O livro “Doutor Euclydes”, de Francisco Sodero, professor Sodero, como é conhecido pelas redondezas de Lorena e em cidades vizinhas, traz literalmente, em detalhes, o caminho percorrido pelo grande escritor-engenheiro, ou engenheiro-escritor, nomenclatura mais apropriada para o curto mas intenso tempo que Euclydes da Cunha morou na região.

Região de mares de morros de Aziz Ab’Saber, que guarda muita trilha feita de história do Brasil, muita trilha de cultura que fez de nós quem somos, índios, caboclos, bandeirantes, desbravadores, mestiços, sertanejos, caipiras que somos em busca, ainda hoje e talvez por muito tempo, dos nossos próprios “descobrimentos”.

Sendo assim, o vale-paraibano tem no livro “Doutor Euclydes” essa chance que não lhe é fornecida com a devida importância em tempos atuais.

Ah, não é!

A educação no Brasil anda “às turras”, e sabe-se bem com quem, com os “desgovernos” de sempre a castigar-nos, o que não deveria acontecer na vida moderna.

E ao lê-lo podemos ter um salutar encontro com o que professor Sodero chama de realismo histórico marcante e inconfundível de Euclydes da Cunha.

Cada página traz esse “caminhar” com o escritor como em “máquina do tempo” que nos faz pensar se a adentramos ou se nós, brasileiros, dela nunca saímos.

Trazendo esse pedaço da história do escritor que nosso povo não conhece como deveria, descortina-se triste confirmação de que também o povo vale-paraibano, assim como Euclydes da Cunha o era, não sabe de parte tocante da história do Brasil, mas também não sabe da história de sua gente.

Os estudos, pesquisas de Francisco Sodero, cofundador do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV), e de seus membros buscam há anos reunir, registrar, divulgar por aqui e acolá tudo o que há de mais “rico” na história e cultura do Vale do Paraíba.

 

Esse espaço de tempo em que o “obscuro engenheiro”, assim chamado pelo professor em “Doutor Euclydes”, chega a Lorena, fixando residência, tendo o cargo e os encargos de Chefe do II Distrito de Obras Públicas, exercido com “engenharia ingrata e trabalhosa” e pela “convivência estúpida com dezenas de empreiteiros que me rodeiam”, palavras do próprio que constam na página 50 (apud ALVES, 1975, p.100), enquanto se ocupa simultaneamente da revisão de sua grande e majestosa obra, está impresso cuidadosamente em cada capítulo e cada página levemente escrita com jeito de “contador de história” das bandas da Serra da Mantiqueira ou outras tão lindas quanto.

“Doutor Euclydes” tem linguagem coloquial e layout interessante, e vêm em todo ele descritos os pormenores do cotidiano do engenheiro-escritor, de suas correspondências, relatos de figuras que o conheceram e com quem conviveu no breve período na região, além de mapas e fotos que preenchem espaço e acabam por nos levar a uma reflexão insistente.

Por que desconhecemos nossa própria história?

Por que ainda hoje não temos sabido por todos, do Vale do Paraíba Paulista de Francisco Sodero ao Vale do Paraíba Fluminense de Euclydes da Cunha, onde estão as muitas obras patrimoniais e literárias “construídas” por essa personalidade caipira, talvez mais conhecida por estrangeiros, que não negou em momento algum de sua vida tal condição? “Nunca perdi este traço de filho da roça que me desequilibra ao tratar com quem quer que seja”, palavras do próprio.

O autor Francisco Sodero em entrevista para a TV Vanguarda sobre a obra “Doutor Euclydes”. A matéria vai ao ar dia 14 de julho, pelo programa Vanguarda Comunidade.

Por que mesmo com o advento da internet “caminhamos” a passos tão lentos, como os de Doutor Euclydes a trilhar valendo-se dos meios de transporte daquela época, trens, troles, viagens a cavalo?

E seus relatos estão lá nas cartas que enviava e com as quais podemos nos “transportar”, “numa volta ao passado”, pela história, lendo “Doutor Euclydes”.

Por que muitos não sabem sobre os projetos nas cidadezinhas onde moram e menos ainda sobre quem os fez, fiscalizou, reformou, reforçou?

São seis obras rodoviárias, vinte e um pontilhões em ribeirões diversos, duas pontes de madeira sobre o Rio Paraibuna, seis pontes de madeira sobre o Rio Paraíba, nove pontes metálicas sobre o mesmo Rio Paraíba, sete prédios para cadeia, quatro prédios para escolas isoladas, seis prédios para os chamados Grupos Escolares.

Edificações esplendorosas resistindo ao tempo, cheias de história!

Por que não transmitimos esses conhecimentos que recheiam o livro “Doutor Euclydes” com veemência e com a mesma rapidez dos “memes” desta época dos internautas cheios de um nocivo “heroísmo amalucado”, para que todos conheçam tão rica história de nosso canto caipira, de nossa gente como Euclydes da Cunha, que nesse pedaço entre a serra e o mar teve a tranquilidade de chegar a sua casa e a sua “mesa-secretária”, onde esteve obcecadamente revendo seus escritos de “Os Sertões”?

Professor Sodero traduz nas linhas da página 113 de “Doutor Euclydes” o que significa a obra de reconhecimento literário excepcional:

Um novo modelo de intelectualidade que se esboçava pela valorização do passado e pela busca da nacionalidade brasileira. A unanimidade em torno de Os Sertões foi tão grande que o autor conheceu uma glorificação meteórica.

Mas a documentação meticulosa do livro que conta os “causos” de Euclydes da Cunha em Lorena, também transformada em literatura, nos leva a deixar de lado a tecnologia e a “passear” pelo passado, mesmo que esbarrando em frases que poderiam ter sido escritas exatamente agora para causar impacto bastante e agitação até o próximo segundo, quando acontece nova postagem nas redes sociais. Como o trecho abaixo da página 46 de “Doutor Euclydes”:

Com seu caráter patriótico e combativo, Euclydes não poupou críticas aos desmandos observados em seu tempo, principalmente pela continuidade de certos vícios na vida pública o que o levava, por vezes, a manifestar seu desânimo frente aos destinos da vida republicana. De Lorena, escreveu ao seu seleto amigo Escobar, de São José do Rio Pardo, manifestando o sentimento de desesperança com o futuro do país: “a nossa raça está liquidada. Deu o que podia dar: a escravidão, alguns atos de heroísmo amalucado, uma república hilariante e por fim o que aí está, a bandalheira sistematizada”

Não!

Não, nos resignemos!

Professor Sodero não o faz.

Continua ele, insistentemente, tirando da história a razão para que esse povo do sertão vale-paraibano, ou de quaisquer sertões ou cidade pequena ou grande do nosso País, tenha uma chance. E, assim como a tecnologia, que não nos dará trégua nunca mais — algo, aliás, fenomenal —, traz à FLIP o livro “Doutor Euclydes”, sem dar trégua ao cansaço dos escritores, historiadores e professores dessa “caminhada” incessante, imprimindo “em papel” mais uma chance, uma apenas que nos faz encontrar com o conhecimento, mas por inteiro, sem “alimentar” desatinos com a leveza ou dureza da vida, sem dar ao drama pessoal e familiar, morte trágica como a do grande escritor, maior valor que aos fatos, ao realismo histórico desses nossos personagens tão fantásticos, porque os temos, sim, temos muitos deles, nesses nossos brasis tão afortunados de terra rica e gente forte apesar de nossas falhas recorrentes, nosso mar de lama, nossas pontes que não ficam mais de pé, nossa típica “confusão” com o que temos visto como testemunhas oculares, assim como Euclydes da Cunha ao adentrar a Guerra de Canudos como jornalista e sair dela como escritor consagrado sensível e inevitavelmente transformado em um brasileiro como milhares de outros em tempos quaisquer desta nossa, ainda em construção, história.

Revista Especial Euclydes da Cunha. Edição Especial. Entrega gratuita durante a FLIP em Paraty.

O livro de Francisco Sodero nos faz “esperançar”, sim!

Faz querermos acompanhá-lo em louvável obsessão de professor também “andejo” para que não percamos a chance de conhecermos a nós mesmos, caipiras ou não, letrados ou não, e assim “nos acheguemos” ao Doutor Euclides e ao Vale do Paraíba Paulista.

Livro: Doutor Euclydes – A transformação de um obscuro engenheiro no consagrado
escritor Euclydes da Cunha – Francisco Sodero – Uka Editorial.
Vendas: Livraria do Vale
Acervo do IEV

O Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV) mantém um acervo bibliográfico e um Centro de Documentação sobre o Vale do Paraíba, que alimentam pesquisas e trabalhos de diferentes tipos e ao qual recorrem estudiosos de diversas áreas do conhecimento.

Para agendamento e consulta de obras: cesaper.lorena@unisal.br falar com Aparecida Uchoas.

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